O incansável pesquisador
– sobre os italianos no cinema brasileiro
Clovis Molinari Jr.
O que dizer de um homem
que deveria ser tombado pelo Patrimônio Histórico?
Homens necessitam também da proteção
de institutos de preservação. Mereceriam,
no mínimo, um programa especial de história
oral para registrar tudo o que não deu para dizer
em livros e filmes.
Por sorte, Jurandyr Noronha não perdeu tempo.
Com ajuda de Júlio Heilbron e Gilberta Mendes,
genro e filha, já deixou aos brasileiros, por enquanto,
os livros No tempo da manivela, Pioneiros
do cinema brasileiro, A longa luta do cinema brasileiro,
Dicionário do cinema brasileiro (de 1896 a 1936)
e Momento mágico. Produziram curtas e médias-metragens,
além dos documentários de longa metragem
Panorama do cinema brasileiro, Cômicos e mais
cômicos e 70 anos de Brasil. Ostentando uma
vitalidade invejável e uma vivacidade intensa do
espírito de pesquisador, Jurandyr Noronha tem planos
e mais planos cinematográficos.
Enquanto ele se ajeita na cadeira, percorro o seu rosto
hospitaleiro, os olhos enormes e atentos, os cabelos brancos...
96 anos! Como um tonto super-homem, tento entrar na mente
do maior pesquisador vivo do cinema brasileiro! O super
cérebro que faz rir e emocionar quando fala. O
crânio do cinema brasileiro!
Sentados à mesa da sala ampla de sua residência,
no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro, folheamos livros
que são trazidos pela empregada mineira muito prestativa.
Ele pede, ela busca. Ela se engana, ele se diverte com
o erro. É descritivo, diz onde está a
fita (expressão antiga que não abandona,
assim como film, com acento na letra l, como
pronunciava Humberto Mauro), lembra a cor do objeto que
procura. Ele insiste, pacientemente dá novas referências,
dicas, o que está ao lado, detalhe do móvel,
do canto, do ângulo, do lugar onde se encontra um
DVD de capa dura: um produto da pirataria! O DVD que Jurandyr
tanto queria me mostrar era o seu próprio filme:
70 anos de cinema brasileiro. Observo em seu
sorriso uma satisfação pelo fato de ser
pirateado, como se fosse um jeito torto de reconhecimento.
Ele sabe tudo de sua casa, de seu quarto e escritório,
assim como conhece tão a fundo a história
do cinema brasileiro.
Apesar de solicitar o andador para caminhar (uma companhia
de anos a que já está acostumado), noto
hoje apenas uma pequena deficiência na audição
e uma ligeira irritação quando não
consegue se lembrar de algo que, até pouco tempo
atrás, lhe vinha fácil à memória.
Ele se esforça e sempre se lembra. Incrível!
Às vezes interrompe a linha de um raciocínio
para expressar uma palavra que procurava minutos antes
e que finalmente lhe chegava: “CINEMATROPHONIA!
Este é o nome do sistema de sonorização
dos filmes que Benedetti criou! CINEMATROPHONIA!”.
Faz uma pausa depois da lembrança, como se recuperasse
de um esforço enorme. Então, retoma o pensamento
e abandona o passado já passado a limpo. “O
tempo passa! O tempo passa aqui e agora. O tempo não
passou, está em toda parte”. Jurandyr repete
de maneiras diferentes as variadas formas de encarar o
tempo e a capacidade de retê-lo em palavras e imagens.
Lembrar é isso. Lá no fundo, enquanto falava
sobre um assunto, buscava a resposta para uma questão
que ainda não estava bem resolvida. Nenhuma frase
poderia ficar incompleta. Todos os pensamentos exigem
uma solução. Silenciosamente, ele franze
a testa para forçar as curvas da memória.
Eu observo, nas marcas da pele dobrada da testa que pensa,
todo o movimento da investigação interior,
um processo muito particular. Conversar com Jurandyr Noronha
é uma festa cheia de histórias! Ele diz
que já não é o mesmo, uma modéstia.
Tem uma memória impressionante! Visitar Jurandyr
Noronha é como frequentar a academia para exercitar
o cérebro!
Com caderno e caneta, anoto as suas impressões
sobre o cinema brasileiro feito por imigrantes italianos.
Foi para isso que combinei um encontro: O que Jurandyr
Noronha mais trazia à lembrança sobre os
pioneiros italianos que ajudaram a fundar e construir
o cinema nacional?
“Nada ficou do cinema brasileiro, de tudo o que
foi feito nos primeiros 15 anos. Desse período,
sabemos do que aconteceu pelos jornais e pesquisadores.
Eu sempre busquei salvar o que pude. Existe um filme feito
por um italiano, Alfonso Segreto, que sobreviveu à
destruição: é o Desfile Militar
de Sete de Setembro de 1910. Pascoal era empresário,
o irmão Alfonso filmava. Fiz um filme que se chama
70 anos de cinema brasileiro, o filme de Segreto
está lá. Vocês precisam exibir, acho
que demora uns três minutos. Durante algum tempo,
diziam que os irmãos Segreto namoraram as ideias
anarquistas... não sei.
O Júlio Heilbron produziu dois filmes importantes
que têm a ver com os italianos: um é José
Medina, onde aparecem juntos José Medina e
Gilberto Rossi. Foi Júlio quem salvou Exemplo
regenerador (1921) e Fragmentos da vida (1929), nos
anos de 1960. Medina nasceu em Sorocaba, viveu quase noventa
anos. Era projecionista, ator, argumentista, diretor,
montador e roteirista. Era como Chaplin, completo. Um
incêndio no laboratório da Rossi Film destruiu
a maioria dos filmes de José Medina.
Gilberto Rossi foi cinegrafista, diretor, laboratorista...
Outro grande nome do período do cinema silencioso!
Nasceu na Itália. Chegou em 1911, faz um século
este ano. Começou como fotógrafo, indo de
casa em casa oferecendo trabalhos. Após 1913, filmava
de tudo, fosse o que fosse. Depois oferecia à venda.
Montou um laboratório com muita dificuldade. Durante
dez anos, editou um jornal, o Rossi Atualidades.
Foi câmera em todos os filmes de Medina. O rosto
de Rossi pode ser conhecido pelo emblema da Rossi Film.
É dele a figura que está lá. Além
dos filmes que fez com Medina, tem outro que é
Escrava Isaura, acho que de 1929. Ah! No filme
José Medina, há o encontro histórico
entre Medina e Rossi. Eles conversam e lembram. Tem que
passar! Outro filme de Júlio, dirigido pelo Luiz
Carlos Lacerda, o Bigode, é Ângelo Agostini.
Muito importante e interessante a história desse
caricaturista, ilustrador, desenhista, pintor, gravador,
jornalista, italiano do século XIX. Um sujeito
muito independente e crítico. Precursor dos surrealistas!
Você precisa exibir para o público do REcine.
Tem um italiano que vocês não podem deixar
de prestar uma homenagem. É Paulo Benedetti. Paulo
Cianelli Benedetti. Ele também nasceu na Itália,
mas chegou ao Brasil antes de Rossi, acho que em 1897,
quando o cinema estava aparecendo. Ele era laboratorista
e exibidor ambulante. Criou uma sala permanente de cinema
na cidade de Barbacena (MG), em 1909. Criou a Cinematrophonia,
que combinava discos, filme e orquestra com um metrônomo
na tela. Fundou a Ópera Film. Trabalhou para Vittorio
Capellaro, fundou a Benedetti Film, no Rio de Janeiro.
Era um inventor. Ele instalou o serviço de iluminação
a gás nos carros de passageiros da Estrada de Ferro
Central do Brasil. Fazia argumentos, foi ator, diretor,
produtor... No laboratório dele foram processados
filmes de Humberto Mauro. Barro humano, Sangue mineiro
e Lábios sem beijos passaram pelo laboratório
de Benedetti. Eu acredito que é um dos nomes mais
injustiçados do cinema brasileiro. Vocês
vão homenageá-lo? Não sei se deixou
herdeiros. Acho que os filhos morreram. Procure alguém!
Se não achar, faça assim mesmo, por ele!
Verifique se Limite, de Mário Peixoto,
também passou pelo laboratório dele. Benedetti
era extraordinário! O laboratório ficava
na rua Tavares Bastos, número 153, no Rio. Fazia
letreiros, contratipos e cópias para empresas estrangeiras.
Da melhor qualidade! Na fase do cinema silencioso, fez
tentativas com o sistema Vitaphone. Aquele filme que aparece
o Noel Rosa e o Bando dos Tangarás, Vamos falar
do Norte, é dele! Procure uma escritora chamada
Lúcia Benedetti, talvez seja parente.
O Capellaro viveu em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Eusébio Vittorio Giovanni Battista é o nome
completo desse italiano que veio de Piemonte. Ator de
destaque da companhia Eleonora Duse. Um galã. Atuou
em filmes italianos. No Brasil, foi documentarista. Depois
trabalhou no DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda,
fazendo a gravação de som com a sua própria
aparelhagem. Da melhor qualidade! Era apaixonado pela
literatura brasileira (O guarani, Inocência,
Iracema...). Foi estupidamente espancado durante
a Segunda Guerra Mundial. Os oriundos dos países
pertencentes ao eixo Roma-Berlim-Tóquio estavam
proibidos de sair à rua no dia 7 de setembro. Os
policiais o pegaram e o espancaram. Um horror! Apanhou
tanto que mal conseguiu explicar que estava indo trabalhar
no DIP. Pouco tempo teve de vida. Realizou em 1932-34
o espetacular O caçador de diamantes.
O pai de Humberto Mauro, Caetano, era italiano. Pedro
Comello nasceu na Itália, se radicou no Egito e
acabou montando um laboratório de cinema em Cataguases,
Minas Gerais, cidade de Humberto Mauro. Esse encontro
foi o ponto de partida para a fundação da
Phebo Sul América Film. Humberto Mauro largou a
câmara Pathé-Baby de 9,5 mm e adotou a câmera
35 mm de Comello. Não confunda com o Carlos Comelli,
que nasceu em Bolonha, Itália. Este saiu do Rio
e foi para Porto Alegre. Era ator, cinegrafista... montou
empresas de produção de cinema no sul do
país.
Pesquise no ciclo da Vera Cruz os nomes dos italianos
da segunda leva, após a Segunda Guerra Mundial.
Lá estão excelentes técnicos. Lembro-me
agora de Mário Civelli, o italiano que chegou ao
Brasil em 1946 com a tarefa de pesquisar locações
para um filme sobre Anita Garibaldi a pedido de Dino de
Laurentiis. O filme nunca saiu, mas ele resolveu não
voltar à Itália e, em 1952, fundou a Multifilmes,
em Mairiporã. Civelli é responsável
pelo primeiro filme colorido brasileiro, O destino em
apuros (com Paulo Autran). Civelli foi o primeiro documentarista
a percorrer as matas virgens de Goiás, Mato Grosso,
Alagoas e Bahia. Embrenhou-se pela Amazônia duas
vezes, de onde saiu com O grande desconhecido (1956)
e Rastros da selva (1958). Chamou a atenção
do Marechal Rondon, que cedeu a ele as imagens que havia
registrado no início do século de suas expedições
pela Amazônia. Fundou sua própria companhia,
a Maristela. O gigante é um documentário
de Mário Civelli que testemunha a evolução
do cinema documental ao longo do século XX. Você
viu?
E o Remo Usai? Vocês vão lembrá-lo?
Trilha de filme era com ele, o maior!
Henrique Pongetti nasceu em Juiz de Fora, mas é
de origem italiana. Foi argumentista e trabalhou comigo
no DIP. Começou a carreira de jornalista. Logo
depois foi para o Rio de Janeiro, onde escreveu sua primeira
peça teatral, que foi musicada por Antonio Lago,
pai de Mário Lago. Escreveu para grandes atores
como Procópio Ferreira, Manuel Pêra, Raul
Roulien e Jaime Costa, nas décadas de 40 e 50.
Foi responsável pelos roteiros dos filmes Grito
da mocidade e Favela dos meus amores, este
último de Humberto Mauro. Tinha uma crônica
diária no jornal O Globo, dirigiu as revistas
Radiolândia e Manchete.
Você encontra muitas famílias italianas
na cidade do Rio de Janeiro, se conversar com os vendedores
de bancas de jornal. Os italianos não pescavam
na Baía da Guanabara, mas vendiam o pescado. Luchino
Visconti é o meu cineasta italiano preferido. Rocco
e seus irmãos me toca! Sou de origem portuguesa
e húngara. Conheci pessoalmente Benedetti e Capellaro.
Quando é o REcine deste ano? Vou tentar estar
presente.”
Abraços de despedida.