Um cinema de encher os
olhos
Em 2011, o REcine completa dez anos de existência
homenageando a presença italiana no cinema brasileiro
e exibindo verdadeiras pérolas de uma das maiores
cinematografias do mundo. O pioneirismo, a ousadia, a
irreverência e o esplendor do cinema italiano e
sua importante e indispensável influência
no cinema brasileiro vão ocupar as telas de cinco
salas de exibição e do pátio ao ar
livre do Arquivo Nacional, durante os cinco dias do REcine.
Pouca gente sabe, mas a carreira do grande astro de
Hollywood, Clint Eastwood, foi alavancada graças
a um ousado diretor italiano de filmes de faroeste, Sergio
Leone. Aquelas músicas que já embalaram
muitos romances foram compostas por um requisitado autor
de trilhas sonoras do cinema, o italiano Ennio Morricone,
cujo talento tem sido aproveitado há décadas
em produções não só italianas
como também de outros países.
Um dos criadores do cinema foi um italiano chamado Filoteo
Alberini, que, em 1894, criou uma câmera de filmagem
e projeção, patenteada somente em 1896,
um ano depois da invenção dos franceses
Irmãos Lumière, graças à burocracia
do Ministério da Indústria e Comércio
italiano. Poucos anos depois, Alberini fundou com seu
sócio, Dante Santoni, uma empresa produtora, realizando
ao longo de sua vida mais de duzentos filmes, entre ficção
e documentário.
Os italianos desde os primeiros tempos do cinema, ainda
no século XIX, exploraram apaixonadamente as possibilidades
que uma câmera poderia oferecer, realizando filmes
dos mais diversos gêneros e tornando a Itália
um dos principais centros produtores cinematográficos
do mundo. Rapidamente tornaram-se muito populares os épicos
históricos, alguns deles superproduções
que influenciaram o cinema americano e de outros países,
como a Alemanha, durante a era do cinema silencioso.
O tão endeusado star system hollywoodiano foi
inspirado nos primórdios do cinema italiano, quando
a imensa popularidade de seus atores e atrizes e a numerosa
produção, nas duas primeiras décadas
do século XX, arrastavam multidões para
assistir a tragédias passionais e superproduções
históricas que reviviam a Antiguidade romana. Essa
fase extraordinária terminou com a Primeira Guerra
Mundial e a ascensão do fascismo a partir de 1919.
Já nos anos 30, ciente da importância que
o cinema tinha para o povo italiano, Mussolini aumentaria
seu poder de persuasão investindo na produção
de comédias leves e dramas românticos em
que predominava uma Itália idealizada e luxuosa,
com cenários caprichados e enredos submetidos à
implacável censura do governo, de modo a impedir
que aspectos negativos do país chegassem ao grande
público. Os épicos históricos voltariam
a ser produzidos, com enredos que ressaltavam a moral
e a forma física, servindo então à
ideologia fascista.
Na Europa arrasada do pós-Segunda Guerra, livre
do fascismo, jovens cineastas italianos romperam com os
padrões dominantes e iniciaram uma revolução
no cinema mundial: o Neorrealismo, que se tornou, nas
décadas seguintes, um alento para o cinema de outros
países, incluindo o Brasil, com sua proposta original
e libertária, em que atores não profissionais
interpretavam pessoas comuns enfrentando as mazelas de
um país cheio de contradições. A
meta era fazer filmes de baixo orçamento e roteiros
com forte conotação social, tudo aquilo
que durante o regime fascista era impossível de
ser feito.
Chegavam os anos 50, o desenvolvimento econômico
e o progresso social dos italianos, com o passar do tempo,
refletiriam no cinema, e logo os filmes não teriam
mais o mesmo apelo social do Neorrealismo, tornando-se
mais despretensiosos e cômicos, mas ainda críticos,
aproveitando alguns elementos neorrealistas, como filmagens
externas e roteiros baseados na vida dos cidadãos
das camadas mais baixas da população. Talentos
como Federico Fellini, Valerio Zurlini e Dino Risi assumiam
a direção de longas-metragens, criando estilos
próprios e mantendo a cinematografia italiana entre
as mais importantes do mundo. As comédias burlescas,
especialmente as estreladas por Totó, faziam grande
sucesso.
Nessa época, os chamados filmes de sandália
e espada ou peplum (túnica usada pelos heróis
das histórias), como eram apelidadas as produções
cujas tramas se passavam na Roma Antiga, tentavam resgatar
o sucesso dos épicos históricos de décadas
antes. Tal como os épicos dos anos 1910, os pepluns
conquistariam uma imensa popularidade.
A agitação política característica
dos anos 60 e 70 também deixou sua marca no cinema
italiano. Os filmes políticos feitos nesse período
determinaram um gênero próprio. As temáticas
extremamente questionadoras que abordavam o poder, família,
religião, o colonialismo europeu no continente
africano, entre outros tópicos polêmicos,
desafiavam o sistema vigente.
Foi também na década de 60 que despontou
para história do cinema o jeito Sergio Leone de
filmar faroestes. O mais famoso e talentoso diretor de
western spaghetti conquistou respeito e admiração
para esse gênero, que poderia ser visto como mera
imitação do cinema americano, mas que, na
verdade, tinha um modo muito próprio de contar
histórias passadas no Velho Oeste. Seus heróis
fora da lei, várias vezes interpretados por atores
americanos, atingiram uma notoriedade que ultrapassou
as fronteiras da Itália e ficou na memória
de toda uma geração de cinéfilos.
É esse cinema genial e resistente, cheio de talentos
singulares, que o REcine celebra exibindo filmes dos mais
variados gêneros, dos diretores mais consagrados
aos menos conhecidos e igualmente talentosos, além
de sessões dedicadas a filmes restaurados pela
Cinemateca de Bolonha, uma parceria inédita.
Obras de mestres como Federico Fellini, Michelangelo
Antonioni, Roberto Rossellini, Valerio Zurlini, Sergio
Leone, Vittorio de Sica, Luchino Visconti, Pier Paolo
Pasolini, Bernardo Bertolucci, Vittorio de Seta, Elio
Petri etc. têm lugar garantido na programação
do REcine 2011.