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NEORREALISMO ITALIANO
     

Cine Itália: História a partir dos cacos da guerra

Igor Affonso Cunha. (Estudante de Comunicação Social das Faculdades Integradas Hélio Alonso)
Rafael Antonio Amendola dos Santos. (Estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro)

 

 

 

No final da Segunda Guerra Mundial, a Itália, assim como diversos países europeus, encontrava-se devastada. Poucos meses antes, o país estava dividido em três, contrariando a promessa de uma nação unida e forte, propagada por Benito Mussolini. Enquanto ele governava o norte com o apoio do regime nazista, o centro estava dominado pelos alemães e o sul protegido pelos aliados. Apesar desse cenário e dos italianos estarem perdendo cada vez mais familiares, casas e, sobretudo, seus sonhos, e ainda assim resistirem, um sentimento de revolta se espalhou por todo o território, derrubando as tropas alemãs e o regime fascista.

Como consequência dos traumas causados pelos anos de bombardeio, opressão e miséria, cineastas e intelectuais posicionaram-se criticamente frente ao panorama político, econômico e social da época. É nesse contexto que vai surgir o Neorrealismo italiano, o mais importante movimento cultural cinematográfico da Itália, considerado por muitos a última revolução do cinema mundial.

Se há algo de positivo que o fascismo possa ter deixado como legado para os italianos foi o incentivo a manifestações de todo cunho artístico. O Neorrealismo apresentava-se geralmente por uma contraposição entre os poucos recursos e uma imensa capacidade criativa. Fazendo ressalvas às características específicas de cada filme e do estilo próprio de cada cineasta, temáticas contestadoras, linguagem simples, tomadas ao ar livre retratando o dia a dia dos proletários, camponeses e a pequena burguesia, podem ser percebidas nas cenas, senão em todo o filme. Seu ponto principal era ser fiel à realidade social, deixando claro seu propósito político.

Início do Movimento

A produção neorrealista tem como marco inicial o filme Roma, cidade aberta (Roma, città aperta, 1945), dirigido por Roberto Rossellini. O filme retrata a história de Giorgio Manfredi (Marcello Pagliero), um dos principais líderes da resistência e que está sendo procurado pela Gestapo, em plena Roma durante a Segunda Guerra Mundial. Desesperado, ele procura nos amigos Francesco (Francesco Grandjacquet), sua noiva Pina (Anna Magnani) e o padre Don Pietro (Aldo Fabrizi) ajuda para conseguir um lugar para se esconder e uma nova identidade para sair de Roma o mais rapidamente possível. Ambos, Francesco e Pina, são pegos pelos nazistas, e então Giorgio foge para o apartamento de sua amante, Marina (Maria Michi), sem imaginar que este seria o maior erro da sua vida.

1948 – Tríade gloriosa

Assim como 1945 foi um ano marcado pelo que pode ser considerada para os italianos como a eclosão em território nacional de um novo jeito de se fazer cinema, os filmes neorrealistas produzidos em 1948 têm também enorme importância.

O filme Alemanha ano zero (Germania anno zero, 1948), também de Rossellini, retrata a Berlim completamente devastada pelos aliados. Edmund (Edmund Moeschke), um garoto de 12 anos, encontra-se em meio a uma tragédia social. Sua irmã é acusada, injustamente, de prostituir-se para os soldados estrangeiros. Apesar da pouca idade, ele também precisa ajudar a família financeiramente, já que o pai precisa de repouso devido a uma doença. Além de todos esses problemas, o cineasta faz com que o jovem ainda reencontre um ex-professor, o sr. Enning, claramente retratado como um pedófilo. Com a influência de Enning em sua vida, Edmund envenena o pai, achando que o estaria livrando do sofrimento. Perdido na vida, o garoto é levado a um triste fim.

Vittorio de Sica, em Ladrões de bicicletas (Ladri di biciclette, 1948), retrata as dificuldades pelas quais a população italiana estava passando. Ricci (Lamberto Maggiorani) consegue um emprego que lhe pedia como obrigação uma bicicleta. Com muito esforço, ele e sua mulher Maria (Lianella Carell) conseguem dinheiro para comprá-la. Infelizmente, enquanto o homem estava em seu primeiro dia de trabalho, a bicicleta é roubada, sendo este o fato principal que dará origem ao desenrolar do filme. Ricci, seu filho Bruno (Enzo Staiola) e amigos iniciam uma busca incansável para recuperar um bem necessário que significava a garantia do trabalho e sustento para a família em tempos difíceis.

Luchino Visconti, em A terra treme (La terra trema, 1948), apresenta a revolta contra a opressão. No filme, é contada a história de uma pequena aldeia de pescadores em Aci Trezza, no sul da Sicília, que são forçados a vender o produto da sua pesca por pouquíssimo dinheiro a exploradores. Desejando mudar esta situação, Antonio (Antonio Arcidiacono), o filho mais velho de uma tradicional família da aldeia, hipoteca a casa, e com o dinheiro começa a trabalhar por sua conta e vender o peixe diretamente na cidade mais próxima. Sem conseguir convencer os outros membros da aldeia a fazerem o mesmo e ter seu barco destruído por uma tempestade, a sina de Antonio continua ser de fome, dívidas e vingança.

Influência para os Novos Cinemas

Como legado para o mundo, os filmes neorrealistas deixaram a imagem do homem que sofria com as misérias deixadas pela guerra, oprimido pelas ditaduras, mas que ainda assim era um ser histórico à procura de novas dimensões do conhecimento da existência.

Mesmo produzido com poucos recursos e atores amadores, fora dos estúdios, tendo como tema a vida do cidadão comum, não se deve estigmatizar este grandioso movimento, parte importantíssima da cultura italiana, somente levando em consideração suas formas de produção.

Apesar de breve em território nacional, a cinematografia neorrealista italiana deu origem, em diversos países do mundo, aos chamados Novos Cinemas, reforçando sua característica revolucionária cinematográfica e marcadora de época. A partir dela, surgiram a Nouvelle Vague francesa, nos anos 1950, o Nuevo Cine argentino, o Cine Imperfecto cubano e o Cinema Novo brasileiro, em 1960.

Neorrealismo e Cinema Novo brasileiro

Para o cinema brasileiro, o Neorrealismo não só impulsionou o surgimento de um movimento cultural, como também inspirou estudantes de cinema e transformou o pensamento dos artistas e intelectuais. O cinema “antropofágico”, como ficou conhecido e que surgiria dali a pouco, apesar de influenciado, também possuía características particulares de produção que deslocaram o brasileiro da posição de objeto para sujeito de sua própria história.

O Neorrealismo teve uma enorme repercussão positiva na sociedade brasileira, com destaque para o humanismo do movimento, desde o primeiro filme exibido. A ocasião ocorreu em novembro de 1947, em São Paulo, com a recepção a O bandido (Il bandito, 1946), de Alberto Lattuada. Devido à forma como se deu este primeiro contato é que hoje, em filmes cinemanovistas como os dos célebres Glauber Rocha, estudante do Centro Sperimentale di Cinematografia e líder do Cinema Novo; Paulo César Sarraceni, discípulo rosselliniano declarado; e Nelson Pereira dos Santos, o “tradutor do Neorrealismo” no Brasil, observa-se um grande diálogo com a filmografia de Rossellini e Visconti de Sica, por exemplo.

Semelhanças entre os filmes

O Cinema Novo brasileiro revela um caráter nacionalista que em momento algum se desvia da estética internacional do movimento. Em Barravento (1962), filme de Glauber Rocha, encontram-se diversos traços do estilo neorrealista. A história do filme é a de um grupo de pescadores pobres de uma região da Bahia, cujos antepassados vieram da África na condição de escravos. Um deles, Firmino (Antônio Sampaio), que se mudou para Salvador fugindo da pobreza, já tendo vivido no ambiente urbano, está tentando livrá-los de suas velhas crenças e da exploração por meios diabólicos. O mar e suas divindades, assim como as danças e músicas são de extrema importância para o desenrolar da narrativa.

O termo que dá nome ao filme é explicado logo no início como “o momento de violência, quando as coisas de terra e mar se transformam, quando no amor, na vida e no meio social ocorrem súbitas mudanças”.

Barravento e La terra trema têm profunda ligação, porém diferenciados pelo local e o tempo onde a narrativa acontece. Em ambos, notam-se as figuras dos líderes, Firmino e Antonio, revoltados com a situação em que eles e suas aldeias se encontram. Explorados economicamente, eles desejam, através da revolta, transformar as suas respectivas realidades.

Nos filmes, os espectadores percebem, de forma clara e cronológica, a situação de conflito de classes, entre pescadores e exploradores, o chamado para libertação, a derrota e suas consequências em prol de uma nova consciência. O próprio Glauber, à época do filme, revela certo respeito pelo estilo narrativo de Visconti. Entretanto, o cineasta brasileiro vai além ao acrescentar um final feliz voltado para uma esperança no futuro, característico do Cinema Novo.

Em Vidas secas (1963), filme de Nelson Pereira dos Santos baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos, é contada a história de uma família de retirantes do Nordeste, que perambula pelos solos do sertão, em busca de melhores condições de vida. Porém, Fabiano (Átila Iório), Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), seus dois filhos Genivaldo (Genivaldo Lima) e Gilvan (Gilvan Lima) e a cachorra Baleia acabam sendo vencidos pela fome e a miséria, e assim morrem seus sonhos e esperanças.

Os traços neorrealistas do filme são evidentes, a partir do momento em que ele mostra a relação das crianças com os animais ou propriamente com o mundo adulto. Consequentemente, é dificílimo não fazer uma relação com as crianças de Vittorio de Sica e outras da galeria de personagens neorrealistas.

Vidas secas tem uma relação muito interessante com Ladri di biciclette. Em ambos os filmes, a criança é mostrada como vítima indefesa, e também as principais testemunhas de um mundo de desigualdade, horror e miséria. Enfim, de um pós-guerra interminável, como mesmo disse Nelson Pereira dos Santos.

Foi o único filme brasileiro indicado pelo British Film Institute como uma das obras fundamentais em uma cinemateca, uma das produções mais importantes já feitas na história do cinema.

As películas e cineastas neorrealistas foram, portanto, importantes agentes revolucionários. Sofreram, primeiramente, com a realidade em que se encontravam e com uma inicial recusa por parte dos críticos italianos, para logo após serem aclamados e abraçados por aspirantes a cineastas. Seu reconhecimento, fora do território nacional, foi ainda maior e gerou uma onda de novos cinemas pelo mundo fundando o moderno cinema do pós-guerra.

Os herdeiros da comédia italiana que satirizavam a sociedade do pós-guerra como Ettore Scola, Francesco Rosi com O caso Mattei (Il caso Mattei, 1972), Mario Monicelli com Meus caros amigos (Amici miei, 1975) e Elio Petri com A classe operária vai ao paraíso (La classe operaia va in paradiso, 1971) merecem destaque assim como Federico Fellini retratando as desilusões da burguesia italiana e Michelangelo Antonioni a solidão em suas obras. O legado é realmente imenso.

Bibliografia

BAZIN, Andre. O cinema, ensaios. “Alemanha ano zero”, “O realismo cinematográfico e a escola italiana de liberação”, “Ladrões de bicicleta”, “De Sica diretor”. São Paulo: Brasiliense, 1991.
CATALOGO CCBB. Olhares neorrealistas. 2007.
FABRIS, Mariarosaria. O Neorrealismo cinematográfico italiano. São Paulo: Edusp/Fapesp, 1996.
_______________. Neorrealismo italiano. In: MASCARELLO, Fernando (Org.). História do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2006.
XAVIER, Ismail. O realismo revelatório e a crítica à montagem. In: ______. O discurso cinematográfico: opacidade e transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

 

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